Custo Brasil: como manter a indústria próspera em um cenário cada vez mais competitivo em nível global?

A estimativa é de que o Custo Brasil retire R$ 1,5 trilhão por ano das empresas instaladas no país de acordo com dados da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Diante desta realidade que impacta pequenas, médias e grandes empresas, como manter a indústria próspera em um cenário cada vez mais competitivo em nível global?

Para responder estas e outras perguntas sobre os impactos do custo Brasil convidamos Diego Dall’Oca, fundador e CEO da DBCORP, que acumula quase 30 anos de know how no desenvolvimento de soluções para manufatura e gestão empresarial.

Antes da entrevista, é fundamental entender o que é e quais fatores geram o custo Brasil.

O Que é Custo Brasil?

Custo Brasil é um termo utilizado para indicar um conjunto de dificuldades que atrapalham o desenvolvimento e crescimento do Brasil, como a falta de investimento em infraestrutura, excesso de burocracia, estrutura tributária, logística deficiente, insegurança jurídica, entre outros. Todos os pontos citados comprometem a competitividade nacional e internacional porque as atividades se tornam custosas e até ineficientes.


Qual é a origem do termo “Custo Brasil”?

A expressão se popularizou num seminário promovido pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) em 1995, ano seguinte ao lançamento do Plano Real. O tema foi levado a debate e na época os empresários já advertiam sobre a necessidade de uma reforma tributária, ponto que até hoje é um grande problema.

Tendo em vista este cenário, Diego foi convidado pela equipe de marketing da DBCORP para responder algumas perguntas com base em sua experiência na indústria e como empresário que também precisar superar os obstáculos do custo Brasil.

Diego, antes de iniciarmos as perguntas sobre o custo Brasil, eu gostaria de saber como foi o contato com o setor industrial, como começou?

No início da minha carreira, por morar na região do ABC paulista, polo da indústria automotiva do Estado de São Paulo, tive meus primeiros trabalhos dentro de enormes fábricas. Por alguns anos fui técnico residente na ARMCO e depois da Solvay do Brasil.

Me encantava, e ainda me encanta, ouvir as histórias, os desafios e os grandes feitos que os gestores dessas fábricas compartilhavam comigo em conversas informais. Quando comecei a empreender e passei a ter contato com outro perfil de empresas – pequenas e médias –  percebi que a barreira que separava as dores desses empresários das soluções era o alto custo dessas tecnologias. Considero que esse “gap” foi meu trampolim para o empreendedorismo. Isso aconteceu há cerca de 30 anos, mas esse ainda é o “combustível” que mantém minha motivação, e a empresa viva e se reinventando, todos os dias.

Na sua opinião, quais são os fatores do custo Brasil que mais impactam a indústria?

A gente pode dividir estes fatores em 2 grupos: O grupo que é inerente a todas as empresas que atuam no Brasil, que são os custos com o governo, sistema judiciário, infraestrutura carente, condições das estradas, eficiência dos portos, entre outros. Tudo isso compõe o custo Brasil que a gente tem pouco domínio e controle… isso porque dependemos de os governos fazerem algo para melhorar. Mas uma parte do custo Brasil, que não é “A MAIS” importante, mas sem dúvidas é uma parte importante, é o custo Brasil da ineficiência do empresário.

Você pode ter um fornecedor que te faça esperar mais do que deveria por uma entrega, ou seja, ele atrasa a entrega porque existe uma cultura na empresa dele de atrasar entregas. Esse é o custo Brasil dos negócios entre empresas, esse sim, a gente pode fazer muito para melhorar!

Então você acredita que muitas empresas perdem eficiência por ter um ou outro fornecedor que são importantes, mas que tem problemas de atraso de entrega, por exemplo, e talvez essas empresas nem enxerguem o quanto fornecedores ruins podem impactar na eficiência delas?

Exatamente! Eu dei este exemplo de atraso de entrega, mas tem uma série de outros fatores, como empresas que não medem a eficiência dos próprios funcionários. Pode ser que a empresa carregue este custo por não medir a eficiência dos funcionários ou por ter uma cultura entre os colaboradores de “ser eficiente apenas quando for cobrado”. Esse tipo de gestão acaba tendo um custo que não era para ter. São sobre estes fatores que a gente tem muito a fazer.

O que os empresários podem fazer para reduzir o custo Brasil?

Como eu disse anteriormente, tem coisas que dependem dos governos e tem coisas que dependem da gente. Se eu tiver pessoas que trabalham bem, processos eficientes e uma boa gestão dos processos, a minha empresa será eficiente e assim a gente terá reduzido bastante o custo que está nas nossas mãos reduzir.

Uma boa gestão de processos não é quando eu faço uma ordem de produção e sei quanto tempo teoricamente levarei para produzir aquele lote; é saber se consigo medir com eficiência; é enxergar e resolver gargalos e mais do que isso, saber como não conviver com esse tipo de problema. Quando eu aumento a minha eficiência, eu diminuo o custo Brasil não só para a minha empresa, mas para os meus clientes também.

“Quando eu aumento a minha eficiência, eu diminuo o custo Brasil
não só para a minha empresa, mas para os meus clientes também.”

Outro ponto importante é reduzir o número de fornecedores problemáticos. Eu uso o IQF para saber quem são os meus fornecedores eficientes e ineficientes e tenho uma equipe que trabalha de forma colaborativa com eles. Compartilhar o IQF com os fornecedores tem o objetivo de ajudá-los a serem mais eficientes, e se em última instância eles não toparem fazer as melhorias sugeridas, eu devo trocar de fornecedor. Somente com essa cultura eu já melhoro o ambiente todo do negócio, ou seja, se cada um cuidar muito bem da sua eficiência e da sua cadeia, já estará ajudando muito.

Se eu ajudar toda a cadeia, todo o ecossistema é eficiente. E o contrário também é verdadeiro, existem empresas que têm a cultura da ineficiência.

A pandemia da Covid-19 evidenciou fragilidades que já impactavam no desempenho da indústria e trouxe ainda novas dificuldades. Qual a relação entre pandemia e o custo Brasil ficou mais evidente para você?

Alguns governos estaduais e municipais estavam com os serviços digitalizados e por isso o impacto foi menor, mas em muitas pequenas cidades não havia digitalização nenhuma… imagine precisar se relacionar com um órgão público, o qual você não pode ir até lá presencialmente devido a pandemia, e não existir serviço digital? Principalmente em prefeituras e governos de estados menores, isso aconteceu muito e foi terrível! Muitas pessoas tiveram seus processos travados, abertura de empresas travadas… e tudo isso por causa da falta de digitalização. O que se espera é que com a experiência adquirida na pandemia, a realidade mude e que agora ninguém precise mais ir até à prefeitura ou órgão público por causa de documentos que poderiam ser solicitados pela internet e recebidos por e-mail.

Considerando que o custo Brasil e a pandemia são obstáculos que os empresários, independentemente do tamanho de suas empresas, tiveram e têm que enfrentar, quais fatores você considera decisivos para se manter competitivo?

O principal fator é você automatizar rapidamente tudo que for possível… porque isso faz com que as pessoas façam o que só pessoas podem fazer, como: ser criativo, encontrar novas soluções, pensar em novos negócios… Isso nenhum computador faz ainda! Quando você consegue automatizar as rotinas de uma empresa, você libera as pessoas para serem mais eficientes, para serem mais criativas e proporem melhorias. Esse é o caminho!

“Quando você consegue automatizar as rotinas de uma empresa, você libera as pessoas para serem mais eficientes, para serem mais criativas e proporem melhorias. Esse é o caminho!”

Como você consegue ser estratégico se tiver um caminhão parado esperando uma nota que depende de você emitir? A partir do momento que a emissão desta nota depende de apenas um clique, você passa a ter tempo para pensar de forma diferente.

Estamos em ano de eleição, você acredita que a indústria será impactada de forma direta?

Eu, pessoalmente, não acredito em soluções vindas do governo, seja este governo “A” ou “B”. Todos os governos pregam melhorias e mais eficiência, e analisando a nossa história vemos que isso não acontece. Temos que trabalhar “apesar” de qualquer governo, esse é o foco: fazer bem o nosso trabalho e conseguir assim superar dificuldades que qualquer governo venha a trazer.

Qual conselho você, como empresário, daria para os gestores de pequenas e médias indústrias?

Ainda que a gestão seja de uma pequena ou média indústria, você tem que ter a cabeça de uma empresa grande. A gente fala muito de eficiência de empresas alemãs e americanas, e, por que não fazer tudo que estiver ao nosso alcance com a mesma eficiência deles? Não estou falando para copiar, e sim para incorporar no nosso dia a dia a eficiência em comunicação, em processos e em tudo que for possível.

Quanto tempo aqui no Brasil uma empresa demora para pagar os impostos? Me refiro a fazer a apuração e recolher o imposto, não estou falando de nada diferente do que manda a lei.

A Doing Business realizou um estudo para analisar a burocracia envolvida no pagamento de impostos e é bastante interessante para vermos essa diferença… Neste estudo foi feito um ranking que mostra quanto tempo se gasta para pagar os impostos em cada país.

Citando alguns exemplos, no Bahrein se gasta 23 horas/ano, nos EUA se gasta 175 horas/ano e no Brasil se gasta 1.500 horas/ano para pagar os impostos, ficando atrás da Venezuela e do Congo. Quanto isso pesa no custo do nosso produto final? Se dividirmos 1.500 por 160 horas, são quase 10 meses para pagar impostos. E se você pensar que este valor se refere a uma empresa média, provavelmente em uma empresa grande este valor seja muito maior.

Agora imagine se estes impostos pudessem ser apurados e recolhidos de uma maneira muito mais eficiente? Todo o tempo que esta pessoa poderia empregar em melhorar um monte de coisas… Como é nos EUA, onde uma pessoa gasta um pouquinho mais de um mês para pagar os impostos do ano. É importante pensar nisso, fazer a nossa parte e trabalhar para reduzir esse número.

Mesmo com bons sistemas ERP de apuração de impostos, é claro que ainda existirá uma perda de tempo devido à complexidade de nosso sistema tributário, mas no que depende da nossa organização, da maneira como a gente estrutura a nossa empresa, podemos diminuir em muito a nossa média! E isso reflete em qualquer ranking que a gente fizer de eficiência em qualquer outro prisma do negócio, seja em processos, em cadeia de fornecimento, tempo para exportar… Parte do custo a gente tem pouco controle e outra parte a gente tem controle. Quando olhamos esse ranking, percebemos que podemos ser mais eficientes.

A pandemia da COVID-19 surpreendeu o mundo e foi necessário reinventar a forma de trabalhar, foi preciso repensar processos e se adaptar. Você atribui o sucesso das empresas que conseguiram se manter competitivas no período da pandemia a utilização da tecnologia?

Sem dúvidas! Inclusive vários clientes nossos conseguiram estruturar o home office de setores como faturamento, fiscal, comercial, entre outros em 2 ou 3 dias! Essa vantagem permitiu proteger as pessoas de áreas onde os colaboradores não poderiam fazer o trabalho remotamente, como o chão de fábrica. Essas empresas já estavam com DBCORP ERP em nuvem, então só pegaram os computadores, coordenaram que fossem instalados nas casas e pronto, estava feito! Neste período, várias empresas que estavam cotando ou prospectando ERP tiveram um esforço muito maior, pois a pandemia as pegou despreparadas, pois o modelo de gerenciamento não oferecia essa flexibilidade. Então, óbvio que se duas empresas competem, uma com produto que permite colocar todo mundo em home office em 2 dias e outra não, em algum momento o vírus poderia comprometer 30%, 40% das equipes dessa segunda empresa… E aí, como fica?

A gente não pode cair na armadilha de pensar que foi uma eventualidade algumas empresas estarem preparadas e outras não. A gente não sabe de fato como vai ser, a gente não tem bola de cristal, mas se você tem a cultura de eficiência, aconteça o que acontecer, isso vai te garantir vantagem.

Se entrar um governo que cobre mais impostos, que burocratize processos, que tire certas vantagens que você tinha antes, que seja melhor ou pior, ser eficiente sempre te dará vantagem!

Ter processos digitalizados é benéfico não apenas por viabilizar o trabalho remoto, mas também oferece uma visão mais clara da empresa e a partir disso é possível tomar decisões estratégicas mais rapidamente, o que é decisivo especialmente em momentos como esse da pandemia onde o cenário era incerto.

E vamos mais longe ainda… Mesmo que a gente esteja vivendo um momento de pós pandemia, onde as pessoas já estejam indo a lugares públicos, não estão mais usando máscara, ainda tem gente tirando vantagem do que aprenderam na pandemia… Antes um escritório na Berrini que custava R$30.000,00 por mês, hoje não custa mais. Isso virou o que? Resultado financeiro, ou seja, eficiência no uso dos recursos.

Estamos falando da mentalidade eficiente, que tem a ver com a parte do custo Brasil que está sob nosso controle, ser eficiente em tudo!

Eu acredito que o mais importante do meu conselho é: não seja você parte do custo Brasil para seu cliente, seja você parte da solução! Quando pensarem para quem vão mandar um pedido, que pensem na sua empresa. Que pensem: “vou mandar para ele porque eu não preciso me preocupar com prazo, não preciso me preocupar se vai chegar com qualidade”. Você pode até praticar uma política de preço mais agressiva, mas ela é justificada pelo nível de eficiência… por isso, não seja você parte do custo, e sim a parte da solução.

“Não seja você parte do custo Brasil para seu cliente,
seja você parte da solução!”

O Futuro do custo Brasil
No início de 2021, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou uma lista com 25 propostas para reduzir o chamado Custo Brasil e acelerar o crescimento da economia. Leia AQUI a lista completa das propostas.

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